FraME-i | Framework Metaprojetual para inovação em MEs industriais

Pesquisa realizada a partir do método Design Science Research (DSR) propõe framework para a inserção do Design como condutor de soluções inovadoras nas microempresas industriais. 

Quando

2018

Quem

Projeto realizado dentro do Programa de Mestrado Profissional em Design, Tecnologia e Inovação / UNIFATEA
Orientadores:
Prof. Dr. Nelson Tavares Matias
Prof. Dr. Henrique Martins Galvão

Como

Problematização > Aplicação de questionário > Desk research > Pesquisa de campo > Proposição de artefatos

As microempresas (MEs), especialmente as do setor da indústria, além de enfrentarem obstáculos tipicamente gerenciais, ainda se mantêm à margem de elementos que permitam seu crescimento em um cenário fluído e complexo como o brasileiro.

Neste contexto, o Design, aplicado de forma estratégica, pode se tornar um importante elo integrador entre MEs industriais e inovação. 

Sob este ponto de vista e a partir do método de pesquisa Design Science Research (DSR) este estudo foi conduzido. Apoiado pelas abordagens do metaprojeto e Design Estratégico, foi proposto um modelo conceitual para a inserção do design como elemento estratégico nestas empresas, dando origem ao artefato FraME-i (Framework Metaprojetual para Inovação em Microempresas Industriais).

Sobre o projeto

De que forma o Design orientado à inovação pode ser inserido nas MEs industriais de acordo com a singularidade dos seus negócios?

Problematização

A partir de reuniões com o orientador do projeto e alguns mindmaps, é obtida uma maior conscientização do problema com o uso de desk research, revisão de literatura e aplicação de questionário preliminar.

Como referencial teórico foram pesquisados trabalhos publicados a respeito de inovação em MPEs, complexidade, inovação guiada pelo design, metaprojeto, gestão de design e sobre o método DSR

Aplicação de questionário

Nesta fase inicial foi realizado um levantamento com aplicação de questionário (survey online) enviado a um mailing segmentado, composto por profissionais de diferentes cargos atuando em empresas de diversos portes e áreas, situadas na região geográfica do Vale do Paraíba Paulista (amostragem não aleatória). 

O disparo foi realizado por meio da ferramenta MailChimp. 

O questionário foi composto por dezoito questões (quatorze fechadas e quatro abertas) e montado na ferramenta Google Forms

A pesquisa quantitativa serviu como ponto de partida para uma melhor argumentação, bem como obter uma visão geral do fenômeno da inovação e do design nessas empresas. 

Coleta de dados: julho a agosto de 2017

total de empresas
Survey - total respondentes do questionário
Principais resultados do questionário aplicado

Foi realizada uma pesquisa bibliográfica exploratória em bases de dados para identificação de artefatos similares já propostos (modelos, frameworks, etc) que contemplassem a inserção do design em MEs, ou que poderiam se adaptar ao contexto estudado para a solução do problema de pesquisa.

Esta revisão foi realizada em seis etapas e a pesquisa foi conduzida a partir de uma busca em fontes primárias disponíveis em bases de dados eletrônicas.

Artefatos similares

Principais resultados da análise de similares

Entrevista

Realização de entrevista semiestruturada em ME industrial

O objetivo principal aqui foi compreender a cultura de inovação e design dentro desta tipologia de indústria, sua cultura, seu processo de desenvolvimento de produtos e estrutura organizacional, verificando como a inovação se coloca nessa indústria.

Também buscou-se observar como acontece a aplicação dos serviços de design que são oferecidos hoje pelas empresas ou consultores da região, e o papel do profissional de design neste contexto.

Principais resultados da entrevista
  • Amostra: microempresa industrial na região geográfica delimitada pelo estudo;
  • A entrevista foi realizada com um dos sócios proprietários;
  • Dados foram registrados com smartphone para posterior transcrição e codificação com a utilização do software Sonal;
  • Coleta de dados: junho 2018 

Estreita vinculação empresa-empresário, resultando numa gestão voltada aos objetivos pessoais do proprietário, mas também leva a uma menor burocratização e disposição maior a riscos.

Possui conhecimento tácito, mas sem uma conscientização clara do conceito. Evidência de que uma sensibilização interna prévia acerca do tema na empresa influencia positivamente nessa questão.

Existem esforços orientados à melhoria significativa dos produtos, processos de produção, bem como produtos novos para o mercado.

A concorrência desempenha um papel fundamental na motivação para que a empresa esteja buscando melhorar ou desenvolver novos produtos.

O processo de desenvolvimento de novos produtos se dá informalmente e de forma intuitiva.

A capacidade de inovação é baseada na articulação das competências gerenciais e orientada à práticas como experimentação e adaptação de tecnologias.

Essa prática é impulsionada pelas fontes externas de conhecimento (inovação aberta) com foco no usuário final.

Recursos financeiros para se investir aparece como principal apontamento, que, em grande parte, advém das barreiras externas do contexto Brasil, como burocracia e carga tributária. 

Outra barreira identificada diz respeito às atitudes de compra dos clientes finais da empresa, que são conservadores em relação à utilização de produtos novos no mercado.

Para vencer esses desafios a empresa utiliza estratégias como marketing promocional (amostras, catálogos, eventos, etc) bem como uma política de concorrência baseada em preços.

Colaboração interna voltada para melhorias não é formalizada dentro da empresa, e toda troca de conhecimentos e ideias é feita no dia a dia.

A estrutura enxuta da MPE propicia maior facilidade de comunicação interna e consequente envolvimento dos funcionários.

Espaço para autonomia e flexibilidade para seguir novos caminhos.

Uso do design gráfico no desenvolvimento de embalagens e identidade visual por meio de consultoria externa.

Priorização de aspectos visuais de apresentação da marca e dos produtos. No entanto, a aplicação do design no nível operacional é um indicativo de que a empresa já percebe o Design como uma ferramenta de diferenciação e construção do valor de marca (inovação de marketing).

Existe um planejamento básico orientado para investimentos em desenvolvimento de novos produtos.

Uma parte desse investimento é destinado à divulgação dos produtos e ações promocionais, bem como no desenvolvimento das embalagens secundárias.

Falta de indicadores claros na mensuração do retorno alcançado com a implementação das inovações no mercado.

O modelo conceitual abaixo foi baseado no conceito dos sistemas complexos adaptativos, evidenciando as inter-relações entre metaprojeto, design, ambiente interno e ambiente externo.

O modelo, que serviu posteriormente de base para a proposição do framework, representa um sistema modular composto de camadas que se sobrepõem (overlays) com o objetivo de representar uma maior aderência à realidade singular, complexa e fluída das microempresas.

Modelo conceitual

Modelo conceitual se refere a uma representação de um sistema, composto de conceitos que são usados para ajudar a conhecer ou entender um assunto que o modelo está representando
modelo conceitual
Modelo conceitual baseado em overlays
Modelo conceitual - b
Sobreposição e interação das camadas

De acordo com essa representação, os módulos (camadas) funcionariam como “lentes” translúcidas que afetam umas às outras por meio de um movimento contínuo de sobreposição e interação, afetando e sendo afetado pelo dinamismo característico de um sistema complexo adaptativo. A zona de intersecção entre as camadas sobrepostas configura a solução inovadora.

O modelo conceitual com todas as suas articulações é apresentado a seguir:

O sistema é dependente essencialmente do ambiente externo complexo, na base do modelo, onde estão sobrepostas todas as demais, representando sua influência em todo o sistema

O ambiente interno da empresa configura a primeira camada que contextualiza o momento projetual que é altamente dependente de fatores internos e por suas múltiplas interações com o ambiente externo. Nesta camada, os colaboradores e a gestão da empresa são elementos essenciais para um melhor entendimento do contexto, ajudando a compreender de perto o problema.

Na zona central, situa-se a camada metaprojetual que, com o suporte do design estratégico, se torna a forma motriz que irá direcionar o projeto por meio de sua capacidade de ver, prever e tornar visível estratégias inovadoras.

A camada projetual é a “lente” do fazer, avaliar e aprimorar que, com a atuação do design operacional e funcional (representado pela ação do designer) materializa a solução inovadora.

Solução inovadora (saída) representada pela zona de intersecção de todas as lentes sobrepostas.

Esta atuação contínua do designer, promove uma cultura de projeto (6) junto à empresa de forma gradativa, responsável e deliberada, que tende a se tornar uma cultura de inovação (7) alavancada principalmente pelo ciclo de experimentação e aprendizagem propiciadas por técnicas de design e pela dinâmica do sistema complexo adaptativo (autonomia, cooperação, agregação e auto-organização) (8) que irá a longo prazo, e de forma orgânica, configurar uma microempresa orientada à inovação.

Modelo conceitual e suas relações
Modelo conceitual e suas relações

FraME-i

O framework proposto partiu da integração entre o modelo conceitual elaborado no decorrer da pesquisa, com os resultados obtidos com a aplicação do questionário online, entrevista em uma microempresa industrial e da análise de artefatos similares existentes na literatura.

Um framework é uma ferramenta analítica e também um conjunto de princípios que formam as bases para uma determinada ação, auxiliando diretamente nos processos de tomada de decisões e de resoluções de problemas, possibilitando o desenvolvimento de procedimentos, métodos ou técnicas.

Framework conceitual resultante da pesquisa

O framework é sustentado pelos conceitos do Metaprojeto, Design Estratégico e Sistemas Complexos Adaptativos.

O artefato, nomeado pelo acrônimo FraME-i (Framework Metaprojetual para Inovação em Microempresas Industriais) é apresentado acima, com seus elementos, relações e características fundamentais.

Vale destacar que não existe uma sequência linear para a interpretação do framework, tanto em vista do caráter interativo e iterativo dos métodos de design, bem como pela proposta inicial do modelo conceitual que traz como ancoragem uma realidade complexa e mutável.

Os identificadores utilizados na imagem servem apenas como pontos de referência para explicitação dos elementos e respectivas descrições.

O framework traz como base um ambiente externo complexo, fluído e dinâmico (mercado, stakeholders, sociedade, etc.) configurando a camada básica do sistema.

Para que o Design seja inserido na microempresa como ferramenta para a inovação é imprescindível que haja uma predisposição à mudança por parte do proprietário ou gestor da empresa.

Aqui se encontra a figura do Designer, que deve aproveitar inicialmente um projeto pontual para que foi contratado como uma oportunidade para iniciar a inserção do Design como algo sistêmico e orientado à inovação.
Para isso, ele deve possuir também habilidades para gestão de processos e atuar, principalmente, como mediador na tarefa de inserção da cultura projetual.

A camada contextual, primeira camada a ser sobreposta, visa compreender o cenário inicial, bem como sensibilizar a empresa a respeito da inovação e design:

  • Executar o briefing junto à gestão da empresa para levantamento de requisitos técnicos e de mercado;
  • Comprender o ambiente interno (cultura, recursos, capacidades,etc.), bem como sua relação com o ambiente externo;
  • Sensibilizar os colaboradores e a gestão da empresa por meio de rápidas apresentações e exemplos de sucesso;

Efetuar um diagnóstico inicial para identificar oportunidades de inovação por meio do preenchimento e análise do Radar da Inovação.

A camada metaprojetual corresponde à lente central do framework, articulando a aplicação do Design Estratégico (ver, prever e tornar visível), que compreende a construção das estratégias de inovação por meio de algumas técnicas como:

  • Contrabriefing: reflexão visando confrontar os objetivos iniciais do projeto (briefing) baseada na pesquisa contextual. Define limites e orienta escolhas futuras;
  • Pesquisa Blue Sky: levantamento de tendências e oportunidades externas ao contexto do projeto. Direciona e inspira a criatividade;
  • Cenários: definição de metatendências a partir da análise das pesquisas anteriores, utilizando como auxílio ferramentas visuais (painel semântico, gráfico de polaridades, etc). Constroem visões ou trajetórias para inovação.

A partir desta lente metaprojetual temos como primeira saída do framework (output), na zona de intersecção intermediária, os conceitos projetuais (concepts) que irão nortear o desenvolvimento do projeto em si.

Já a camada posterior, camada projetual possui a característica operacional do Design, ou seja, a execução (fazer, testar e aprimorar), bem como voltada à especificação da solução.

A solução inovadora surge, então, a partir da intersecção da lente projetual com as demais lentes (metaprojetual, contextual e ambiente externo), em que será devidamente implementada a partir de um plano de design.

O plano de design (em analogia à ferramenta da área de gestão denominada plano de negócios) fornecerá um guia para operacionalizar o projeto industrial e monitorar a situação em relação aos objetivos definidos. Poderá ajudar a organizar as informações e identificar falhas que podem se tornar erros futuros do projeto, e deverá ser preenchido colaborativamente entre designer, gestor(es) da empresa e funcionários da área de produção. Como escopo básico pode contemplar:

  • Objetivos: oportunidade que está sendo explorada e resultados esperados a partir da implementação da solução;
  • Características da solução: forma, função, significado e valores tangíveis e intangíveis;
  • Ações: etapas necessárias para implementação e avaliação da solução;
  • Requisitos de fabricação: definição de especificações técnicas;
  • Parcerias: stakeholders para atividades de cocriação, testes e aprimoramento (inovação aberta);
  • Investimentos: escopo orçamentário e alternativas de financiamento para o projeto;
  • Métricas de desempenho: definição de indicadores para avaliação e comunicação dos resultados entre gestores, colaboradores e parceiros de projeto;
  • Proteção: estratégias para segurança da propriedade industrial (patente).

Finalmente como dinâmica consolidadora, temos a formação de uma cultura projetual na empresa com a inserção gradativa, responsável e deliberada do Design pelo designer (ou empresa de consultoria). 

Este processo gradativo de inserção do Design (cultura de projeto) ao longo do tempo irá conformar uma microempresa orientada à inovação, por meio da aprendizaqem experiencial, trazida pelas técnicas de design e pelo movimento orgânico de um sistema complexo adaptativo.

Sugestão para estudos futuros